No anoitecer na maloca, o cacique, frequentemente, reúne moços e moças para contar a estória do pássaro mutum.
O PÁSSARO MUTUM:
De aparência pouco atraente! Feio! Desengonçado! As fêmeas pouco o desejavam! Apesar da aparência, o mutum cultivava o hábito de observar a natureza! Conversava com as plantas; com outros animais e pássaros. Cresceu acumulando conhecimentos!
Além dos conhecimentos, nutria o chamado do grande Espírito! Por esse chamado colocava os conhecimentos a serviço de toda a “criação”. Afirmava o mutum: “O grande Espírito, tudo criou! Criou o necessário e o suficiente para sustentar a vida e o bem viver”
O grande espírito, disse o mutum, chama os seres humildes e abertos à vida e a criação, para com Ele, continuar a criação e colocar toda ela a favor da felicidade suprema!
Seguindo o grande Espírito, toda aldeia será feliz e alegre! Alegria que terão por frutos a boa convivência, a paz e a fartura. Que dão lugar a felicidade suprema.
Aberto a aprendizagem, o mutum aprendeu a plantar e a cultivar, diferentes e diversos tipos de alimentos: Mandioca; milho; batata; cará; banana; caju e outros.
O mutum aprendia e ensinava! Por orientação do grande Espírito afirmava: “Nada é de ninguém”! Tudo é de todos”! O respeito a criação, pela escuta ao grande Espírito, dizia o mutum: “É a certeza do viver e do conviver envolvido pelas águas da felicidade suprema”!
Por seus ensinamentos, os Povos da aldeia, onde vivia o mutum, experimentavam a fartura de alimentos! Nada faltava e nada sobrava! Viviam felizes e alegres, em harmonia com seus parentes e com toda a criação!
O PÁSSARO MUTUM SE CASOU:
Casou-se com duas fêmeas, como era o costume! As fêmeas não amavam o mutum! Foi por interesses que aceitaram o casamento! Na convivência, as fêmeas o desprezavam! E quer a vida sexual alimentavam! Era um desprezo profundo e avassalador!
Com a nova situação, o mutum se entristeceu! Se escondia de todos! Não mais observava a natureza! Não escutava e não respondia as vozes dos seus irmãos e irmãs as plantas; os outros animais e pássaros! Deixou de plantar e de colher!
Muito triste e chorando disse a sua mãe: “Vou embora dessa aldeia”! “O grande Espírito recomenda”! Devo procurar outra aldeia e encontrar novas mulheres! A mãe não contendo as lágrimas disse: “Filho, sem você, vamos sofrer a espada cravada no peito, pela ação das carências”! Respondeu o mutum: “Mãe é o desejo do grande Espírito”! Devo ensinar a outros Povos, em novas aldeias! Partilhar a fartura e as sementes da felicidade suprema”! O grande Espírito orienta o meu encontro com outras mulheres para ser e fazê-las felizes! Vá, meu filho disse a mãe, sempre com o grande Espírito.
A LONGA VIAGEM DO PÁSSARO MUTUM!
Sozinho! Com a rede nas costas e pouco alimento! Em meio a floresta caminhava por todo o dia e se abrigava a noite! No trajeto enfrentou terríveis e ferozes obstáculos! Obstáculos ameaçadores! Venceu a todos! Caminhou por muitos dias! Para aliviar a sua aflição e ansiedade, pelo caminho ouvia o canto dos pássaros!
A caminhada exigia muito, do guerreiro mutum! A cada dia perdia energia! Apesar da animação dos pássaros, o desânimo começava a lhe abater! Já muito enfraquecido, sentou-se e se pôs-se a cochilar, quando de repente a voz do grande Espírito: “Não desanime! Comigo você é forte”! Aqui por perto existe uma outra aldeia, onde vive o colhereiro! Colhereiro, retrucou o mutum? Sim! Respondeu o grande Espírito! Colhereiro é uma ave de bico grande! Bico em forma de colher!
Assim que o mutum despertou, levantou o olhar e avistou a casa do colhereiro! Apressou o passo! Logo chegou a nova aldeia!
NA CASA DO COLHEREIRO!
A ave de bico grande veio ao seu encontro! Alegre e hospitaleiro! Disse o colhereiro: Nobre mutum que fazes por essas bandas? Respondeu o mutum: Eu era infeliz! Não dei sorte com as minhas primeiras mulheres! O grande Espírito me encaminhou a você, afirmando que você me ajudaria! Quero encontrar novas mulheres! Desejo ser e fazê-las felizes!
O colhereiro, pediu que adentrasse a casa! Pediu que descansasse um pouco, lhe oferecendo água. Depois de muito se inteirar a seu respeito chamou suas duas filhas: A mais velha e a mais nova! Esse é o jovem e guerreiro mutum! As moças desajeitadas sorriram! Há muito tempo estavam a busca de um jovem macho! Disse a elas o colhereiro: “O jovem mutum já foi casado”! Suas primeiras mulheres não deram a ele o carinho necessário e o suficiente para o fazer feliz! Infeliz, ele deseja encontrar novas mulheres para ser e fazê-las felizes! O que vocês decidem! Mais que depressa responderam: Aceitamos!
O COLHEREIRO CONVERSA COM SUAS FILHAS!
Filhas, o casamento exige aproximação! Como assim disse as moças! O primeiro encontro é sempre amedrontador! Se a semente do amor nasce, tem início os passos para a aproximação. Vejam a aparência do mutum não é tão atraente, mas se a semente do amor nasce, em seus corações, ela melhorará a cada dia! O que devemos fazer para a semente nascer, perguntaram as moças? Respondeu o pai: Cativar o marido! O que é isso, perguntaram elas! Respondeu o pai: Brincar, alizar as penas, cantar para ele, assim vocês verão que a semente germinará, logo vocês se entrelaçaram! Desse entrelaçamento, a planta do amor, crescerá e produzirá frutos! Conscientes e acolhedoras das mensagens do pai, voltaram ao mutum! Ele estava ansioso e cheio de curiosidade.
AS MOÇAS COM O MUTUM!
Sorridentes, as moças se aproximaram do mutum! Ele meio sem jeito, sorriu! Elas o convidaram a ir ao rio. No rio lavaram as suas penas, com o bico fizeram o alinhamento. À medida que cuidavam, perceberam, no mutum, o brilho em sua aparência, pelo sorriso que brotava em seu olhar! Lembraram dos conselhos do pai! E voltaram a aldeia.
RETORNANDO A CASA:
O colhereiro foi ao encontro dos três! Alegre e sorridente perguntou? Vão se casar? Sim! Responderam as filhas! Esta será a nossa primeira noite! Este foi o início de um longo conviver! Nos dias seguintes, se via a aproximação entre o mutum e a família do colhereiro. O mutum passou a ensinar tudo que sabia. Logo o roçado estava feito! As plantas cresciam viçosas e não demorou a fartura de alimentos na aldeia do colhereiro! Com a fartura, a alegria aumentou, a paz se fez e as sementes da felicidade suprema germinavam! Viveram, assim, por muito tempo.
NUM CERTO DIA!
O mutum acordou incomodado. Andava em torno da aldeia com feição diferente. As suas mulheres e o colhereiro o procuraram: “Colhereiro o que está acontecendo”? Respondeu o colhereiro: “Saudades da minha mãe ultrapassam os meus limites”! Preciso revê-la! “O grande Espírito me informou: “A mãe não é feliz longe do filho”! O colhereiro disse: “Vá valente guerreiro”! “Não vá sozinho”! Leve suas mulheres! O guerreiro perde força, quando distante delas!
RETORNANDO A ANTIGA ALDEIA:
De longe o mutum avistou a mãe! No pilão, pisava o milho, para fazer o mingau! As lágrimas brotaram! Apressou o passo! A mãe se levantou e os dois se encontraram, numa forte emoção! Suas novas mulheres, mais que rápido, ocuparam o pilão e continuaram o serviço da sogra. Percebendo o retorno do mutum, na aldeia, dele todos se aproximaram! A alegria renascia! A esperança de novos tempos de fartura. As antigas mulheres, pela fresta da maloca, viram o mutum: Nossa! Como está bonito, disse uma delas. Bonito? Qual nada, está lindo, disse a outra. No coração de cada uma, o ódio cresceu. Não podendo tê-lo de volta, pegaram, cada uma delas, a rede e se perderam na mata. Até hoje não se tem notícias! Na aldeia, todos pediam: Fica mutum! Fica mutum! Você é o nosso valente! Fica! Respondeu o mutum: Sigo as orientações do grande Espírito. Vim buscar a minha mãe. Para Ele, o grande Espírito, a mãe é feliz junto do filho! Voltou no dia seguinte.
Marília, 14 de julho de 2023.
Do livro:
“O CASAMENTO ENTRE O CEU E A TERRA”
Leonardo Boff.
